Conflitos na Circulação

 

As pessoas interagem, no cotidiano, em três ambientes principais: a família, o trabalho e o trânsito. Na família, o número de participantes é o mais restrito, em geral quatro, cinco, dez, raramente mais.
No trabalho, varia muito, mas o relacionamento mais estreito dificilmente passa de 20 ou 30. E, quase sempre, as mesmas pessoas. Já no trânsito é diferente.

Nas áreas urbanas e nas estradas e rodovias, o número se conta em milhares e, às vezes, em milhões. Normalmente, pessoas diferentes que nem sempre se encontram mais de uma vez.

Na família e no trabalho, o relacionamento é mais cuidadoso, uma vez que o tempo de contato é o maior e se repete muitas vezes. No primeiro caso há vínculos fortes a unir as pessoas: o amor, a amizade, o interesse, o respeito, embora a intimidade possa às vezes ser desgastante.

No trabalho, os vínculos são a hierarquia, a cooperação para a realização de tarefas, o interesse e a camaradagem, também ocorrendo o risco de desgaste. No trânsito, as pessoas tendem a não admitir qualquer relacionamento, principalmente a cooperação, que não deixa de ser uma espécie de interesse, mesmo que isso as prejudique e às outras pessoas. É a competição ensejada por esta máquina formidável que é o automóvel ( no sentido genérico: carros, caminhões, ônibus, motocicletas, etc.).

Por que as pessoas têm, em geral, esse comportamento? Por que se expõem e colocam em risco, inclusive de vida, a si e a outras pessoas?

Em primeiro lugar é preciso ter em mente que o automóvel é o grande símbolo moderno da liberdade individual. Ele permite uma mobilidade quase sem limites: teoricamente a pessoa pode sair e chegar na hora que quiser, utilizando o caminho que mais lhe aprouver, com sol ou com chuva, conduzindo quem entender, na velocidade que achar mais conveniente, parado ou não, quando e por quanto tempo quiser.

É obvio que, na prática, há limites que são os do ser humano e os da própria máquina, além dos impostos por fatores externos, tais como as vias trafegáveis e as regras de trânsito: habilitação prévia, normas de segurança, velocidade permitida, preferências, sentido de direção, etc.
Esse sentimento de liberdade, que todos têm ao mesmo tempo, gera uma competição às vezes desenfreada, irresponsável mesmo e , uma vez que não há vínculos entre as pessoas envolvidas, não há respeito, dando ensejo às imprecações, aos insultos e, às vezes, às chamadas “brigas de trânsito” ou “desentendimentos no trânsito“.

É a luta pelo espaço, presente também em outras atividades humanas, seja em casa, na escola, no trabalho. Algumas vezes, é a ânsia de levar vantagem em tudo, mais conhecida como “lei de Gerson” (infelizmente utilizando o nome de um dos maiores jogadores do futebol brasileiro de todos os tempos, que estrelou um comercial de televisão sobre o assunto). Por outro lado, o automóvel é uma carapaça, uma espécie de armadura que dá aos mais fracos a sensação de competir de igual para igual com os mais fortes e, em superioridade com os mais fracos. Pode até haver, no confronto físico, um certo respeito no sentido do mais fraco para o mais forte, da bicicleta para a motocicleta, para o automóvel, para a caminhonete, e o caminhão, o ônibus, etc. porque há um certo abuso no sentido inverso.

Abuso esse que o art. 29, § 2º, da Lei nº 9.503, de 23 de setembro de 1997, que instituiu o Código de Trânsito Brasileiro (CTB), procura coibir ao estipular que os veículos de maior porte serão, em ordem decrescente, sempre responsáveis pela segurança dos menores, os motorizados pelos não motorizados e juntos, pela incolumidadde dos pedestres. Ainda bem que tratores, tanques de guerra e outros veículos mais pesados não trafegam normalmente pelas vias!

Há uma desproporção entre a demanda e a oferta de espaço, isto é, o número de veículos circulando é cada vez maior e o sistema viário não cresce na mesma proporção. Aliás, nem poderia e, mais ainda, não deveria, porque dado ser impossível assegurar espaço para tantos veículos a prioridade deveria ser o transporte público (metrô, trem urbano, ônibus, táxi), com capacidade compatível com as necessidades da região.

O estresse da vida moderna, agravado nos aglomerados urbanos, principalmente nos maiores, se exacerba no trânsito. A competição faz com que muitas pessoas se transformem, esquecendo os mais elementares princípios de educação, respeito ao próximo e, principalmente, de cidadania.

Mario Alves de Melo
excertos do livro: Agente Municipal de Trânsito – Subsídios para Formação e Conscientização

 

 



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