O Grande Engarrafamento: profecias, verdades e demônios

 

Em uma crônica intitulada Engarrafamento, escrita no início da década de 80, Luiz Fernando Veríssimo anuncia em tom apocalíptico o grande engarrafamento. O excesso de automóveis nas ruas atingiria tão alto patamar que as pessoas seriam forçadas a abandonarem seus veículos devido a impossibilidade de movê-los. Em seguida, uma população marginal habitaria os automóveis, alugando para outros os espaços ociosos.
Através de sua pena, o escritor gaúcho fez uma alerta à sociedade sobre a voracidade com que os automóveis ocupavam as vias das grandes cidades. Mas muita gente prefere ignorar o aviso. Em Goiânia, por exemplo, existe uma ditadura dos carros nas vias públicas. No trânsito, estes tem prioridade sobre os outros meios de transporte.

Em nossa capital não existe sequer uma ciclovia regular. Muitas pessoas que utilizam a bicicleta como meio de condução para o trabalho ou como divertimento e lazer, são obrigadas a arriscarem suas vidas disputando espaço em franca desigualdade com motoristas apressados que enxergam os ciclistas como um estorvo, que atrapalham a fluidez do tráfego. Cidades maiores que Goiânia, como São Paulo e Rio de Janeiro, e menores, como Anápolis e Uberaba, possuem ciclovias.

A supremacia dos carros também se impõe sobre o transporte coletivo. Existem na cidade apenas três vias onde o ônibus tem corredor exclusivo: Anhanguera, Goiás e 84 (considerando suas extensões, 90 e Primeira Radial). No momento em que escrevo esse artigo, a CMTC, sob pressão dos usuários do transporte coletivo, acaba de anunciar que irá implantar corredores especiais nas avenidas T9, T7 e 85. É um absurdo notar nos horários de pico, ônibus entupido de pessoas misturado entre carros que levam um ou dois indivíduos. A super lotação, a demora exagerada e o desrespeito fazem com que a viagem dos usuários do transporte coletivo se torne uma via crucis. Tão logo tenha condições financeiras, o usuário adquire uma moto ou um carro, aumentando ainda mais a poluição e o número de veículos nas ruas.

Como se a peça não estivesse completa, ainda aparece na mídia marrom o excelentíssimo prefeito de Goiânia clamando para que ou motoristas deixem seu carros em casa e vá de transporte coletivo para o trabalho. Ora, por que o nosso mandatário não dá o exemplo? Atrevo-me até a sugerir um trajeto experimental: linha 020, partindo do Terminal Garavelo com destino ao Terminal Praça da Bíblia. Já que vossa excelência é um apreciador de corridas, não deve se fazer de rogado em encarar essa maratona. Mas já vou logo advertindo aos seus papagaios de pirata: não caberão todos no mesmo ônibus.

Para fechar esse imbróglio, aparece o governo federal com a redução de IPI para os carros novos. O mesmo benefício foi proposto por um senador às bicicletas. Porém, até hoje a lei não foi aprovada. Volta então a imprensa marrom e hoje anuncia em meio ao foguetório do empresariado: “Vendas de carros novos batem recorde esse mês”. E amanhã, passada a alegria fictícia e fugaz, lamenta: “O trânsito de Goiânia está cada dia mais caótico”.

Os prejudicados com tudo isso é fácil saber: motoristas, pedestres, ciclistas, usuários do transporte coletivo, etc. E os beneficiados, quem são? Antes, dois fatos históricos. Na antiga Alemanha Oriental, o transporte público tinha absoluta prioridade no planejamento urbano e a produção de carros era limitada pelo governo. Segundo. Juscelino Kubitschek, ao implementar seu plano de metas, abdicou das ferrovias em favor das rodovias, pressionado pelos alemães da Mercedes. Em Goiânia, não é segredo para ninguém que um dos manda chuva do transporte coletivo  é também proprietário de uma concessionária de veículos. Portanto, parafraseando o poeta, “the answer, my friend, is blowin’ in the wind”.

Renato Régis do Carmo é historiador

 
 



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